Na rua, a servir refeições quentes, 365 dias por ano

"Um bom dia é quando ajudamos uma família que passava dificuldades e ver a cara de felicidade das pessoas"

Ana Salão, uma das coordenadoras do CASA no Porto, considera que atualmente uma das principais dificuldades prende-se com a questão da habitação.

Em entrevista ao Tribuna Jornal, a coordenadora diz que “é urgente a criação de mais respostas ao nível da habitação, no sentido de conseguirmos retirar as pessoas da rua”, até porque o número de pessoas em situação de sem-abrigo tem vindo a aumentar significativamente em consequência da pandemia num primeiro momento, e da guerra na Ucrânia num segundo momento, o que tem vindo a criar mais dificuldades às famílias com a inflação a disparar para números expressivos.

“O preço dos quartos no mercado é completamente proibitivo para quem apenas tem como rendimento o RSI. Retirar as pessoas da rua é o primeiro degrau de uma longa escadaria, sem esse passo não se consegue trabalhar outros patamares”, explica.

Quando questiona sobre o que o é um bom dia de trabalho para o CASA, Ana Salão considera que um bom dia é quando se consegue “uma vaga para integração de um dos nossos utentes num Centro de Acolhimento Social”, ou quando é possível oferecer ajuda alimentar a uma família que está a passar por dificuldades, sobretudo “quando existem crianças envolvidas e vemos os olhos delas a arregalar-se por verem a comida a chegar”.

A coordenadora do Centro de Apoio ao Sem Abrigo do Porto destaca também que todos os dias são servidas cerca de 550 refeições nos restaurantes solidários espalhados pela cidade e mais 150 pelas ruas do Porto. “Nunca falhamos um dia desde o primeiro, há 14 anos”.

“Sabe, um bom dia seria, na realidade, ver chegar o dia em que nada disto fosse necessário, não existissem pessoas em situação de sem abrigo”, desabafa Ana Salão.

Quando questionada sobre o atual momento do projeto CASA, a coordenadora refere que ao longo dos anos têm sido desenvolvidos novos projetos, dando como exemplo o SOS CASA, que “permite ir de encontro à satisfação de novas necessidades com carácter urgente e pontual”, através do qual é prestada não só ajuda a famílias a satisfazer uma necessidade no imediato, como é dada orientação para a resolução caso a caso de diversos problemas.

“Este apoio não se limita a ser alimentar, sendo também fornecidos mobiliários, eletrodomésticos, roupas, etc.”, destaca Ana Salão, referindo ainda que a gestão operacional dos três restaurantes solidários espalhados por vários pontos da cidade é o projeto que ocupa maior dimensão em termos de voluntariado.

Para o futuro, a coordenadora gostava de ver a possibilidade de “oferta de serviços integrados de balneários, lavandaria, cortes de cabelo, enfermagem, banco de roupa, no sentido de promover a dignidade humana e a autoestima do nosso público-alvo.”

Em relação às parcerias que vão sendo estabelecidas nas diferentes áreas, Ana Salão considera que “todas as parcerias são benéficas, dado que cada uma das associações tem um tipo de intervenção diferente e muitas complementam-se, o que ao longo dos últimos anos tem trazido melhorias significativas para o serviço que prestamos.”

Em relação ao aumento do número de pessoas nas ruas, Ana Salão refere que desde o início da pandemia que o número de refeições distribuídas triplicou. “Detetamos ainda um novo perfil de pessoas que recorrem à nossa ajuda: pessoas com histórico e perfil de empregabilidade, que neste momento se encontram numa situação de fragilidade extrema, apesar de ainda não se encontrarem na rua, pessoas que ainda não conhecem as respostas existentes, que nos pedem ajuda com vergonha e que tentam a todo o custo reverter a situação.”

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