Na rua, a servir refeições quentes, 365 dias por ano

“O facto de ter de pedir ajuda deprime. Todos os dias vou ao email ver se por milagre há resposta a um trabalho qualquer. Porque eu sei que um trabalho mudaria drasticamente o meu quotidiano”, David, 58 anos, utente dos apartamentos partilhados de Coimbra

Antigo professor e jornalista conta na primeira pessoa como é ver-se em situação de sem-abrigo.

De camisa alinhada, aspeto cuidado e discurso fluente, David (nome fictício) é um homem que pode cruzar a vida de várias pessoas sem que alguém suspeite que caiu numa situação de emergência social. Não fosse o apoio do CASA de Coimbra, que integra o Centro Municipal de Integração Social, estaria certamente a dormir nas ruas da cidade. Aos 58 anos, a combinação de uma depressão, más escolhas e a falta de trabalho foram trazendo David para uma situação em que “bateu no fundo”, como o próprio resume.

Mas este “fundo” tem hoje a forma de uma cama lavada dentro de um apartamento partilhado e o apoio técnico na procura de emprego e de cuidados de saúde. David é um dos residentes do projeto de apartamentos partilhados destinados a pessoas em situação de sem-abrigo da cidade de Coimbra. Esta é uma solução temporária que tem como objetivo prestar auxílio a quem mais precisa e em várias vertentes para que exista integração social e autonomia.

O pedido de ajuda de David é o culminar de uma história de vida que revela a suscetibilidade de todos nós, independentemente das habilitações literárias, origem social ou morada. Licenciado em Português-Francês pela Universidade de Coimbra, acabou a fazer uma formação em jornalismo no Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas (CENJOR), em Lisboa. No final do curso, ficou a dar formação no centro e conquistou a carteira profissional de jornalista. “Por essa altura, a minha primeira filha nasceu, em Coimbra”, conta. Foi há 28 anos. Mas na mesma época que viu nascer a filha, perdeu o pai, um acontecimento que veio abalar a sua vida. Ainda assim, tinha um emprego e uma família estável.

Nos anos seguintes trabalhou como professor num colégio durante o dia e de noite era revisor de texto e jornalista no Jornal de Leiria. “Era a situação diametralmente oposta à que tenho hoje. Trabalhava noite e dia. Ganhava bem”, recorda. Mais tarde, em Pombal, trabalhou em três jornais, mas “a crise começou a afetar o setor, com os jornais a fechar”. A relação com a companheira e mãe da sua filha entretanto acabou. Seguiu-se uma segunda relação, que perdurou por poucos anos, mas da qual nasceu uma segunda filha, hoje com 22 anos. “Tenho duas filhas adultas. A mais velha apoia-me bastante, a mais nova reagiu negativamente”, explica.

Depressão e abuso de álcool: a tempestade perfeita

Saído de um período de rupturas emocionais e desemprego, a depressão instalou-se e com ela a dependência do álcool. E a bola de neve de problemas foi crescendo. “A depressão levou ao consumo e o consumo agravou a depressão”, explica. Chegou a estar internado, em 2005, numa unidade especializada para o tratamento de alcoolismo. “Mas o quadro depressivo está cá. Não estou como em 2004, mas tenho ‘maus dias’”, admite. “Tenho maturidade suficiente para saber que há uma altura em que se deve pedir ajuda, mas o facto de ter de pedir ajuda deprime. Todos os dias vou ao email ver, se por milagre há resposta a um trabalho qualquer. Porque eu sei que um trabalho mudaria drasticamente o meu quotidiano, os meus maus hábitos. Sei disso, porque me lembro de trabalhar muito e não andar a fazer nada disto”.

Ajuda do CASA evitou “situação escabrosa”

A ajuda prestada pelo CASA tem sido crucial para David não só ter onde morar, mas para não se sentir sozinho neste caminho de reintegração e de procura por cuidados de saúde. David conta a garantia que o técnico que acompanha o seu caso lhe deu: “Está comigo até ao fim do processo. Se for preciso marcar uma consulta de psiquiatra, por exemplo, ele acompanha-me. Deixei de me sentir tão sozinho a partir do momento em que um profissional se está a interessar com franqueza por mim. Aliás, ele procede assim com todas as pessoas com quem segue.”

A convivência no apartamento partilhado com “tem corrido muito bem.” “Não somos uma família”, ressalva David. “Mas não há conflito, não há barulhos de noite. Sinto-me seguro e confortável, com condições higiénicas. Fornecem-nos ajuda alimentar, temos uma cozinha”, descreve. “Participámos numa recolha de alimentos [do CASA] à porta do supermercado”. “Em termos logísticos simples, durmo abrigado, não passo fome e não me sinto tão sozinho como na possibilidade horrorosa de ir para a rua.”

Se esta solução dos apartamentos partilhados não tivesse surgido na vida de David, como estaria hoje? O próprio diz que não faz a “mínima ideia.” “É uma situação tão escabrosa enquanto perspetiva, que não lhe sei responder. É uma alternativa absolutamente trágica”, admite.

David encerra a descrição do seu percurso de vida, rejeitando ser uma vítima das circunstâncias ou da sociedade: “Estou deitado na cama que fiz. As escolhas de profissões, as escolhas de relações, as escolhas de consumos e outras. A responsabilidade é minha, não é culpa de mais ninguém”, vinca. Conseguirá perdoar-se e seguir em frente? “Agora vou tentar fazer boas escolhas. O meu objetivo é claríssimo: trabalhar, cuidar da saúde e não depender de nenhuma entidade estatal ou IPSS até ter idade de me reformar com mérito. E ainda tenho alguns anos de produtividade pela frente.” O essencial é acreditar em si mesmo: “Eu quero…”

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