Na rua, a servir refeições quentes, 365 dias por ano

“Como as cidades tratam quem vive na rua?” CASA marca presença em debate do jornal Público

“Como as cidades tratam quem vive na rua” foi o mote para um debate promovido pelo jornal Público, uma conversa que contou com a presença do diretor-geral do CASA — Centro de Apoio ao Sem Abrigo, Nuno Jardim.

A conversa, que abordou temas como a estratégia nacional para a integração das pessoas em situação de sem-abrigo, os impactos da pandemia nesta realidade ou a abordagem clínica ao problema, contou ainda com a presença de Henrique Joaquim, que coordena a Estratégia Nacional de Integração de Pessoas em Situação de Sem-abrigo (ENIPSSA), Fernando Paulo, vereador da Coesão Social da Câmara do Porto e coordenador do Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo local, e António Bento, médico psiquiatra.

Questionado sobre se o perfil de quem está nas ruas está a mudar, Nuno Jardim afirma que este “é um fenómeno muito complexo”. “Não se trata de um único problema, é um conjunto de situações ou de problemas que podem surgir de diversas partes, seja a nível económico, a nível de saúde – mental, física ou consumos… É como um conjunto que faz implodir o processo do indivíduo e que pode fazê-lo chegar a esta situação.”

Sobre os dois anos anos de pandemia que passaram, o diretor do CASA sublinha que este período “trouxe novos fatores para a rua” e fez aumentar em 75% os pedidos de ajuda ao CASA em 2020. “Muitas das pessoas que estávamos habituados a ver na rua não deixaram de estar, mas surgiu um novo tipo de pessoa - que tinha o seu trabalho... começaram a aparecer pessoas jovens, muitos imigrantes, muitas pessoas em que a situação socio-económica era muito ténue.”

Nuno Jardim dá o exemplo de pessoas que trabalhavam, por exemplo, no setor da hotelaria, turismo e restauração e que começaram a fazer pedidos ao CASA para poderem alimentar-se. Aliada a uma situação económica frágil, esteve a precariedade na habitação.”

Por outro lado, esta situação de emergência obrigou a que surgissem novas formas de resposta e mais eficazes ao drama das pessoas que caem nas ruas. Mas, ressalva o diretor do CASA, “a questão da prevenção é um dos fatores primordiais para que consigamos resolver esta situação. Se nós não impedirmos que mais pessoas venham parar à rua, não vamos também conseguir ser muito eficazes com quem já está nesta situação e vamos ter sempre um problema.”

Durante a conversa, foi abordada a temática da doença psiquiátrica, com o médico António Bento a pedir investimento em matéria de saúde para a população em situação de sem-abrigo, apontando que o foco tem sido a perspetiva social e da pobreza, quando a maioria das pessoas nesta situação são doentes mentais “em risco de morrer na rua.”

Sobre a componente da saúde mental, Nuno Jardim admite que existe falta no terreno desta componente da saúde: “De facto, essa vertente fica sempre um bocadinho para trás. Até nas equipas de rua ficamos um pouco ‘descalços’. Porque se ligarmos para o 144 a pedir alguma ajuda imediata, não há forma nenhuma de o fazer. Temos de desburocratizar todo o processo.”

Nuno Jardim deseja que os decisores do futuro “percebam este problema, percebam que é estrutural na nossa sociedade” e apela ainda a que “todos os recursos, todas as estruturas” funcionem em conjunto “em prol do cidadão, em prol da problemática, para melhorar a vida dos outros.”

 

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